Até onde vai nosso poder de subjugar a vida, a liberdade?
Do lado de lá de grades, gaiolas, muros e vidros estão eles, as estrelas, aqueles cuja existência parece não ser um prazer, mas apenas serventia de entretenimento para os seres e os filhos desses seres que se dizem humanos, a grande espécie Homo sapiens (homem sábio?!) que parece nada saber sobre cuidado, compaixão e respeito.Lá, onde vários tipos de ruídos se misturam, ouvem-se risos, bramidos, rugidos, piados, ganidos, gorjeados desesperados de araras que se lançam em cheio às grades de suas “imensas” gaiolas, talvez numa tentativa de tornar breve uma vida sem livre-arbítrio.
Um lugar onde pingüins são mantidos em um ambiente longe de se parecer com seu hábitat natural, onde a artificialidade de um aparelho de ar condicionado lhes dá a falsa sensação do clima de sua terra natal.
E lá estavam, também, dezenas de pais esperando na fila para comprar seus ingressos com seus filhos afoitos por verem os animaizinhos vistos no “Animal Planet” e nos desenhos animados, ao vivo, mas com algumas diferenças básicas: esses não falam, não usam roupas, não vão aos lugares que desejam (somente até onde as paredes, grades e vidros lhes permitem), não podem caçar, correr, voar, migrar, etc., etc., etc...
Foi nesse lugar, mas em um ambiente externo ao Zoo, em um regime chamado de semi-liberdade (um tipo de eufemismo para prisão) que a vi: uma linda representante da espécie Rhea americana, que todos nós conhecemos como ema, a maior ave brasileira, que diga-se de passagem, já está extinta em algumas áreas do nordeste brasileiro.
Lá estava ela, como já disse, do lado de lá de uma grade forte e alta, ornamentada por uma tela fina de arame que pouco a permitia colocar seu pescoço para o lado de fora. Ela era curiosa, veio até onde eu estava, ficou olhando pra mim e eu pra ela, teria me permitido um toque se eu ousasse, mas não quis invadir seu espaço, preferi ficar observando seus movimentos graciosos. Várias pessoas chegaram ali também, comentaram, observaram e se foram, eu continuei lá e me atrevi a tirar uma foto (a do início da página), estava muito perto dela. Mas de repente, numa fração de segundo, a ema se transformou. Voltou-se violentamente para a lateral da grade, que dava pra uma rua dentro do parque, investindo fortes bicadas contra a tela de arame, suas asas estavam abertas, queria aumentar seus tamanho para assustar um ser que se movia na sua direção. O ser era uma moça, guarda do parque, usava um uniforme azul e trazia na mão um bastão de madeira. Quanto mais ela se aproximava, mais a ema reagia com violência. A moça até tentou ser dócil, mas a Rhea americana não baixou a guarda, a acompanhou por toda a lateral da grade, até que a mesma desaparecesse de seu campo de visão.
Enquanto permaneci no parque pude ver, embora de longe, a ema estressada, com o olhar atento a qualquer movimento do outro lado da grade, andando de um lado para o outro, na mesma lateral, parecia esperar o retorno do ser de uniforme azul...
Qual será a relação do seu comportamento com o uniforme? Foi o que fiquei pensando. Sim, porque antes do incidente, várias pessoas chegaram perto da grade e ela permaneceu calma...
Se esses animais pudessem falar, talvez nos contariam sobre sua vida, seus dias, suas noites, seus filhotes não concebidos, sobre a privação de seus extintos básicos como voar, correr, caçar, migrar...
Falariam sobre seus medos, sobre os seres de uniformes azuis, vermelhos, amarelos, verdes, brancos...
Talvez só assim aprenderíamos sobre respeito, compaixão e cuidado...
Lily Oliver
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